Estudo terá como ano-base 2025 e deverá subsidiar Plano de Descarbonização com meta de redução de 30% das emissões até 2028
O município de São Lourenço do Sul deu início a uma etapa considerada estratégica para o planejamento ambiental e climático local: a elaboração do Inventário de Emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE). O trabalho tem como objetivo identificar, quantificar e organizar as principais fontes de emissões existentes no território municipal, estabelecendo uma linha de base para futuras ações de redução.
O projeto integra o trabalho denominado Carbono CAIXA – Inventário de GEE de São Lourenço do Sul, desenvolvido pela empresa Mangue Tech. O inventário terá como ano-base 2025, seguindo o Global Protocol for Community-Scale Greenhouse Gas Emission Inventories (GPC v1.1), com nível de reporte BASIC+ e utilização da ferramenta CIRIS v2.6.
A apresentação do projeto destaca que o inventário deverá resultar em um número considerado defensável, auditável linha a linha e reproduzível nos anos seguintes. Essa linha de base será fundamental para verificar a evolução das emissões e acompanhar a meta estabelecida para o município.
Meta é reduzir 30% das emissões até 2028
O projeto prevê dois produtos principais. O primeiro é o próprio Inventário de GEE, referente ao ano de 2025. O segundo será um Plano de Descarbonização, com medidas priorizadas de acordo com custo e potencial de redução.
A meta estabelecida é de redução de 30% das emissões até 2028.
Segundo a apresentação, o plano deverá diferenciar as medidas que podem ser executadas diretamente pela Prefeitura daquelas que dependem de outros atores presentes no território, como produtores rurais, empresas e demais setores da sociedade.
O prazo indicado para a entrega dos produtos é 4 de janeiro de 2027, dentro de uma janela de 11 fases que teve início em 7 de setembro de 2026.
Inventário considera todo o território municipal
Um dos pontos centrais do trabalho é que o levantamento não ficará restrito às atividades da Prefeitura. O inventário será territorial, considerando as emissões que ocorrem dentro dos limites de São Lourenço do Sul.
Entre os itens que serão considerados estão o rebanho, lavouras, uso da terra, consumo de energia elétrica, combustíveis comercializados no município, resíduos e efluentes.
Também será analisada separadamente a operação direta do poder público, incluindo iluminação pública, prédios municipais, frota e serviços municipais.
A apresentação aponta ainda que as duas maiores fontes de emissões esperadas no município são a fermentação entérica do rebanho bovino e o cultivo de arroz irrigado. O cálculo completo deverá dimensionar a participação de cada fonte no resultado final.
Dados já levantados mostram o perfil do município
Antes da etapa de coleta complementar, o projeto já reuniu uma série de informações sobre São Lourenço do Sul.
Entre os dados apresentados estão:
97.557 cabeças de gado bovino em 2024, segundo dados do IBGE;
7.535 hectares de arroz irrigado em 2024, com cultivo realizado por inundação;
87.763 MWh de consumo de energia elétrica em 2025;
6.180 toneladas de resíduos encaminhadas ao aterro de Candiota em 2024;
40,1% da população em área rural, segundo o Censo 2022;
redução de 5.477 hectares de vegetação nativa entre 2022 e 2025, conforme levantamento por satélite apresentado no projeto.
O documento ressalta que os dados utilizados foram obtidos de bases consideradas primárias e conferidas, enquanto a etapa que está sendo iniciada busca preencher informações que não estão disponíveis em fontes públicas.
Por que o município adotará o nível BASIC+?
O protocolo GPC estabelece diferentes níveis de abrangência para os inventários municipais.
São Lourenço do Sul adotará o BASIC+, considerado no projeto como o nível necessário para representar adequadamente as características do município.
Isso ocorre principalmente porque o município possui forte presença de atividades agropecuárias e de uso da terra. O documento aponta que apenas 0,46% do território é urbanizado.
No nível BASIC, setores como agropecuária e uso da terra ficam de fora. Já o BASIC+ incorpora essas áreas, além de processos industriais, permitindo uma avaliação mais abrangente das emissões municipais.
Outra característica importante é que, no BASIC+, nenhuma fonte pode simplesmente ficar sem estimativa. Quando não existe um dado direto, a metodologia prevê uma estimativa declarada, com método e qualidade registrados, ou uma justificativa documental para a inexistência da atividade.
Seis grupos de fontes serão analisados
O inventário está estruturado em seis grandes famílias de fontes:
I – Energia estacionária: consumo de eletricidade, GLP, lenha utilizada em estufas de fumo e atividades industriais.
II – Transporte: combustíveis vendidos no município, incluindo aqueles utilizados pela frota agrícola e pelo tráfego da BR-116.
III – Resíduos: resíduos destinados ao aterro de Candiota, queima de resíduos na zona rural, resíduos de serviços de saúde e efluentes em fossas.
IV – Processos industriais: refrigeração, ar-condicionado, lubrificantes e processos industriais, incluindo a atividade cerâmica identificada no território.
V – Agropecuária e uso da terra: rebanhos, arroz irrigado, solos agrícolas e mudanças no uso da terra.
VI – Outros indiretos: categoria prevista pelo protocolo, com as informações disponíveis sendo tratadas conforme as regras de reporte.
Cinco informações são consideradas prioritárias
A equipe responsável pelo inventário definiu cinco pedidos prioritários à Prefeitura para avançar na coleta de dados.
Entre eles estão as faturas de energia elétrica da iluminação pública e dos prédios municipais, referentes a 2025; os tickets de balança do aterro e do transbordo; informações formais sobre o serviço de esgoto em 2025; dados sobre o combustível utilizado por beneficiadoras de arroz e pela atividade cerâmica; e informações sobre a composição utilizada no processo produtivo da cerâmica existente no município.
A coleta será realizada com identificação do responsável por cada informação, prazo, documento comprobatório e registro do histórico. A proposta é permitir que cada dado possa ser posteriormente rastreado e verificado.
Pecuária e arroz estão entre os principais pontos de atenção
Os dados apresentados colocam a atividade agropecuária no centro da análise.
O rebanho bovino, com 97.557 animais registrados em 2024, é apontado no documento como a maior fonte única esperada do inventário.
Já o arroz irrigado aparece como a segunda maior fonte. Em 2024, foram registrados 7.535 hectares cultivados, e o projeto considera informações sobre área plantada, produção, regime hídrico e outros fatores que influenciam as emissões.
O levantamento também analisará atividades relacionadas ao cultivo de fumo, soja e milho, além do uso de fertilizantes, calcário e eventual queima de resíduos agrícolas.
Resíduos e saneamento também entram no cálculo
Outro componente importante será o setor de resíduos.
O levantamento já registra 6.180 toneladas destinadas ao aterro de Candiota em 2024. O aterro possui recuperação de biogás e geração de energia, informação que deverá ser considerada nos cálculos.
Também serão analisados a cobertura da coleta, composição dos resíduos, massa encaminhada ao aterro, reciclagem, resíduos de saúde e a ocorrência de queima de lixo em áreas rurais.
No saneamento, a equipe busca informações sobre coleta e tratamento de esgoto, funcionamento da estação de tratamento, geração e destinação de lodo e características do sistema existente no município.
Energia elétrica: 87.763 MWh em 2025
O consumo de energia elétrica de São Lourenço do Sul atingiu 87.763 MWh em 2025, dado já fechado e disponível por classe e por mês.
O levantamento contempla consumidores rurais, residenciais, comerciais, industriais, poder público e serviços públicos, além da iluminação pública e outros componentes.
As informações deverão ser cruzadas para evitar situações de dupla contagem, especialmente em setores como saneamento e geração distribuída.
Uso da terra será considerado no inventário
O estudo também incorporará informações sobre o uso da terra, utilizando bases de mapeamento por satélite.
Serão consideradas áreas por classe de uso, desmatamento, silvicultura e matriz de transição de uso da terra. A apresentação ressalta que não se deve confundir a área bruta com aquilo que efetivamente entra no cálculo das emissões.
Município possui 32 registros de olarias e cerâmicas
O levantamento cadastral apresentado também identificou 32 olarias e cerâmicas registradas no município. Segundo os dados consultados em setembro de 2026, apenas uma aparece como ativa, enquanto outras constam como baixadas ou inaptas cadastralmente.
O documento faz a ressalva de que a condição de “inapta” não significa necessariamente que a atividade tenha sido encerrada.
A atividade cerâmica ativa deverá ser consultada diretamente para esclarecer aspectos relacionados ao processo produtivo e aos materiais utilizados.
Inventário terá rastreabilidade e controle de qualidade
A proposta apresentada prevê que cada informação tenha sua origem identificada e que os dados sejam acompanhados por documentação.
Cada linha da planilha receberá uma avaliação da qualidade do dado e do fator de emissão. As bases serão baixadas e registradas com data, permitindo identificar a origem das informações.
O ano de 2024 também será calculado paralelamente para controle de consistência, enquanto 2023 e 2024, considerados anos atípicos no documento, deverão ser tratados de forma específica para evitar interpretações equivocadas de redução das emissões.
A ferramenta CIRIS v2.6 será utilizada para o registro e reporte dos cálculos.
O que acontece depois do inventário?
O inventário será a base para a elaboração do Plano de Descarbonização.
A proposta é que o município passe a ter informações técnicas para definir medidas de redução das emissões, levando em consideração o custo e o potencial de cada ação.
Entre as medidas que podem estar sob responsabilidade direta do poder público estão ações relacionadas à iluminação pública, tratamento de esgoto, frota municipal e gestão de resíduos.
Já outras ações dependerão de articulação com produtores rurais, empresas e demais atores do território, incluindo medidas relacionadas ao rebanho, arroz e uso da terra.
Próximas etapas
De acordo com o cronograma apresentado, as próximas etapas incluem a apresentação do projeto à Comissão Municipal dos ODS, reuniões de acompanhamento, envio de documentos e indicação de pontos focais das secretarias municipais.
Também estão previstas solicitações formais de informações a instituições como IRGA, EMATER, Afubra e a operadora do aterro.
O acompanhamento deverá ocorrer de forma quinzenal, com indicadores de avanço da coleta de dados.
Planejamento para o futuro
Mais do que produzir um levantamento de números, o inventário pretende criar uma base técnica para que São Lourenço do Sul possa acompanhar, ao longo dos próximos anos, a evolução de suas emissões e avaliar os resultados das medidas adotadas.
A escolha do protocolo GPC e do nível BASIC+ busca permitir que o município seja analisado considerando suas características territoriais, agrícolas e ambientais, e não apenas as emissões relacionadas à área urbana.
Com a conclusão do inventário e posteriormente do Plano de Descarbonização, o município deverá contar com uma referência para orientar políticas públicas, projetos e ações voltadas à redução das emissões e à sustentabilidade.
O ano será, portanto, a referência para medir o caminho que São Lourenço do Sul pretende percorrer até 2028.