𝐋𝐞𝐦𝐛𝐫𝐚𝐧ç𝐚𝐬 𝐝𝐚𝐬 á𝐠𝐮𝐚𝐬
Rodrigo Seefeldt
Na madrugada do dia 10 de março de 2011, acordei assustado com as movimentações que ouvia na rua de minha casa. Ao levantar ainda sonolento, percebi que o celular estava tocando. Me assustei, busquei atender rápido, era um amigo que morava próximo ao arroio São Lourenço, contando que estava vindo uma enchente pelo arroio e que passava um carro de som alertando os moradores para saírem de suas residências.
De certa forma não acreditei que a água chegaria em nossa casa, pois ficavam cerca quatro quadras do arroio e dez quadras da praia da Barrinha. Mesmo assim, coloquei uma roupa e sai na rua de casa. A movimentação era constante de carros e pessoas caminhando. Ao chegar na esquina da Rua Sete de Setembro com Princesa Isabel, vejo que na próxima quadra, próximo à escola Monsenhor Gautsch já estava com água na rua.
Voltei correndo para casa e chamei minha esposa Aline, pegamos algumas roupas da nossa pequena Maria Flor, que tinha nascido em 13 de janeiro daquele ano, ou seja, ela estava com 57 dias de vida. Ao sair no portão com elas e os poucos pertences, a água já tomava conta de toda a nossa Rua Princesa Isabel.
Fomos acolhidos no sobrado dos vizinhos Cláudio e Maria, que foram na realidade verdadeiros anjos em nossas vidas e nas vidas de muitas pessoas que eles abrigaram. Em instantes a água foi subindo e levando tudo pela frente. Ajudamos ainda a colocar uma senhora acamada para o sobrado e nesse ato a Aline se machucou, torcendo o pé.
Durante todo o dia ficamos apreensivos e sem entender o que acontecia. Estávamos sem luz, sem sinal no celular e apenas acompanhávamos do sobrado os barcos e helicópteros no resgate das pessoas. A nossa pequena Maria Flor estava em segurança, isso confortava nosso coração. Muitas almas, solidarias apareceram, inclusive dois mergulhadores que foram salvar nossa cachorrinha Benta que tinha ficado em cima de uma árvore.
Após o meio da tarde as águas começaram a baixar, na verdade, o arroio São Lourenço tinha atravessado com a força das águas as ruas diagonais desembocando na Lagoa dos Patos. O sinal de celular retornou e conseguimos avisar os familiares e buscar informações de como todos estavam. Lembro-me que parecíamos zumbis caminhado pelas ruas devastadas e com lama, até encontrar meu pai que nos levou para sua casa na zona rural.
Passamos uma noite difícil, Maria Flor parecia que sentia nossa preocupação de como seria a vida a partir daquele momento.
Muitas cólicas e mosquitos rondaram nossa noite. Amanheceu e resolvemos retornar na cidade para juntar o que sobrou de móveis e limpar a casa para entregar aos proprietários.
Ao andar pelas ruas da cidade o que mais se via era entulhos e lama. Então chegamos na casa e com a ajuda de amigos e familiares começamos a separar o que era aproveitável, já que a água atingiu 1,65 m de altura, pois era mais baixa que rua. A primeira constatação foi que era impossível retornar para esse imóvel, a água tinha feito muitos estragos e a construção era antiga.
Muitos objetos incluindo os detalhes do quarto da nossa pequena Maria Flor viraram entulhos. Várias coisas se perderam e outras colocamos em um caminhão para lavar. De fato, de bens materiais tinha restado uma cama de madeira, um fogão, fotografias salvas pela minha querida Vó Neli e o bem mais importante: nossas vidas.
Com tudo isso e com muita fé conseguimos superar, assim como milhares de pessoas desse município. Essa enxurrada marcou nossas vidas e por isso sempre agradecemos por estarmos vivos e por toda a solidariedade que recebemos de amigos e de pessoas que jamais conhecíamos.
Hoje, a Maria Flor já completou 13 anos e as águas de março, fazem parte de sua vida.
𝐓𝐞𝐱𝐭𝐨 𝐩𝐮𝐛𝐥𝐢𝐜𝐚𝐝𝐨 𝐨𝐫𝐢𝐠𝐢𝐧𝐚𝐥𝐦𝐞𝐧𝐭𝐞 𝐧𝐨 𝐥𝐢𝐯𝐫𝐨 “𝐐𝐮𝐚𝐧𝐝𝐨 𝐚𝐬 á𝐠𝐮𝐚𝐬 𝐢𝐧𝐯𝐚𝐝𝐞𝐦 𝐧𝐨𝐬𝐬𝐚𝐬 𝐯𝐢𝐝𝐚𝐬” 𝐝𝐨 𝐂𝐄𝐋 – 𝐂𝐞𝐧𝐭𝐫𝐨 𝐝𝐞 𝐄𝐬𝐜𝐫𝐢𝐭𝐨𝐫𝐞𝐬 𝐋𝐨𝐮𝐫𝐞𝐧𝐜𝐢𝐚𝐧𝐨𝐬 (𝟐𝟎𝟐𝟒).

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